Nas salas de aula das nossas universidades, o marketing parece elegante. Ele surge organizado em capítulos, estruturado em modelos, sustentado por conceitos claros e citações bem referenciadas. Nos trabalhos acadêmicos, nomes consagrados aparecem com frequência: Philip Kotler, Theodore Levitt, Al Ries, Jack Trout. Os alunos aprendem a citar autores, interpretar teorias e repetir definições clássicas.
Tudo parece coerente. Tudo parece lógico.
O problema é que, fora da universidade, o marketing raramente se comporta de maneira tão organizada.
No mercado real, decisões precisam ser tomadas com informações quase sempre incompletas, com prazos curtos e com pressão constante por resultados. Campanhas falham, produtos não performam como esperado, concorrentes surgem de forma inesperada e o consumidor muda de comportamento com velocidade assustadora.
O marketing real é imperfeito, experimental, dinâmico e muitas vezes caótico.
É nesse ponto que surge uma pergunta incômoda: nossas universidades estão formando profissionais de marketing ou apenas leitores de teoria de marketing?
Não há dúvida de que a teoria tem um papel fundamental. Ela organiza o pensamento, oferece estruturas de análise e ajuda a compreender fenômenos complexos. O problema começa, na minha opinião, quando a teoria passa a ocupar quase todo o espaço da formação.
Em muitas instituições, o estudante aprende mais a explicar o marketing do que a praticá-lo. Aprende a escrever sobre estratégias, mas raramente é colocado diante da responsabilidade de construir uma. Aprende a interpretar cases internacionais, mas pouco discute os desafios concretos das empresas brasileiras.
Enquanto isso, o mercado segue avançando em outra direção. Ferramentas mudam rapidamente, plataformas digitais transformam o comportamento do consumidor e as empresas são obrigadas a construir e desconstruir estratégias constantemente para sobreviver.
Existe, portanto, um distanciamento crescente entre dois mundos que deveriam dialogar permanentemente: a academia e o mercado.
A universidade produz conhecimento, mas muitas vezes o faz dentro de um circuito fechado, conversando mais consigo mesma do que com as empresas. O mercado, por sua vez, cria soluções práticas todos os dias, mas raramente participa da construção do conhecimento acadêmico.
Essa desconexão gera um efeito silencioso: profissionais recém-formados chegam ao mercado com bom domínio conceitual, mas com pouca familiaridade com a realidade das decisões empresariais.
Talvez o grande desafio do ensino de marketing seja reconstruir essa ponte que se rompeu entre teoria e prática.
Universidades precisam dialogar mais com empresas e visitar o mercado. Professores precisam circular mais pelo ambiente empresarial e refletir com seus alunos sobre cenários reais de mudança, competição e transformação. Empresas também precisam participar mais ativamente da formação dos estudantes, abrindo espaço para experiências práticas e problemas concretos.
O marketing sempre foi uma disciplina viva, construída na interseção entre pensamento e ação.
Quando a teoria se afasta demais da prática, ela perde vitalidade. E, quando a prática se afasta da reflexão, ela perde profundidade
Denis Mello
diretor
Nexion Executive Education
denismello@nexion.com.br




