Amigos de Crachá

Na empresa, ele era o diretor. Não “um” diretor — o diretor. Aquele que decidia, aprovava, liberava verba, dava o “ok” final. E, como todo bom diretor, tinha uma constelação de amigos orbitando ao redor. Era um tal de “vamos almoçar?”, “passa lá na minha sala depois”, “preciso muito da sua opinião sobre esse projeto”… Uma popularidade digna de influencer corporativo.


Mas ele sabia. Ah, ele sabia.

Sabia que os convites para o happy hour não vinham por causa do seu gosto musical, e sim pelo seu poder de assinatura. Que os elogios ao blazer não eram sobre moda, mas sobre manter o clima agradável antes da reunião decisiva. E que os “cara, você é demais!” tinham mais a ver com interesse de promoção interna do que com afeto genuíno.


Era uma amizade de crachá. Uma amizade que só existia dentro do perímetro da empresa — entre o café da recepção e a impressora do terceiro andar. Fora dali? Silêncio. Nem um “bom dia” no mercado, nem um emoji no aniversário.


A coisa ficou clara no dia em que ele anunciou sua saída. Não foi demitido, não brigou com ninguém — apenas decidiu seguir outro caminho. E foi aí que os “amigos” evaporaram como café requentado.


O WhatsApp, antes fervilhante, virou deserto. Os convites sumiram. Os “preciso de você” se transformaram em “quem mesmo?”. E ele, que antes mal dava conta de tantos almoços, agora tinha tempo de sobra para comer em paz — e escolher o restaurante sem precisar agradar ninguém.


No começo, doeu. Não pela perda dos convites, mas pela constatação: muitos dos sorrisos eram contratos disfarçados. Mas com o tempo, veio a leveza. A liberdade de não ter que agradar para ser aceito. E a descoberta de que os verdadeiros amigos não ligam para o cargo — ligam para a pessoa.


Passado algum tempo, o nosso diretor foi contratado como CEO de uma grande multinacional. Quase por encanto, os antigos “amigos” voltaram a entrar em contato e a enviar convites para um cafezinho.


Escolado e frio, foi curto e grosso nas respostas.


Hoje, ele tem menos amigos. Mas são reais. Não precisam de crachá, nem de reunião. Precisam só de uma mesa, dois cafés e uma boa conversa.


Porque amizade de verdade não depende de cargo. Depende de caráter !

 

Até a próxima carta do mês !
Denis Mello
Nexion